domingo, 25 de agosto de 2019

Em rede social, Bolsonaro apoia comentário ofensivo à primeira-dama francesa

Conversa de Bolsonaro no Facebook - Reproducao Twitter @ggreenwald

Por Folha de São Paulo

Episódio ocorre em meio a tensão diplomática com líder francês

O presidente Jair Bolsonaro endossou no sábado (24), em uma rede social, comentário ofensivo a primeira-dama da França, Brigitte Macron.

Ao comentar um post do mandatário brasileiro em sua página no Facebook, o seguidor Rodrigo Andreaça escreveu "É inveja presidente do macron pode crê" (sic), postando também uma imagem. Na gravura se vê uma foto de Bolsonaro e de sua esposa, Michelle Bolsonaro, abaixo de um retrato de Macron e de sua mulher, Brigitte Macron. Ao lado das fotos dos casais, há os dizeres: "Entende agora pq Macron persegue Bolsonaro?" (sic).

O perfil de Bolsonaro respondeu a Andreaça: "não humilha cara. Kkkkkkk" (sic), dando a entender que as recentes críticas de Macron ao presidente brasileiro seriam motivadas por inveja da esposa do brasileiro.

​​Bolsonaro está em meio a uma guerra diplomática com o presidente francês em função dos recentes incêndios na Amazônia.

O governo da França disse na sexta-feira (23) que o brasileiro mentiu ao assumir compromissos em defesa do ambiente na cúpula do G20, em junho, e que isso inviabiliza a ratificação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, concluído no mesmo mês.

Bolsonaro rebateu Macron, acusando-o de tentar potencializar o ódio contra o Brasil. O brasileiro lembrou que Macron divulgou em uma rede social uma imagem de um incêndio na floresta amazônica que, na verdade, foi feita por um fotógrafo morto em 2003.

"Lamento a posição de um chefe de Estado, como o da França, se dirigir ao presidente brasileiro como mentiroso. Não somos nós que divulgamos fotos do século passado para potencializar o ódio contra o Brasil por mera vaidade. Nosso país, verde e amarelo, mora no coração de todo o mundo", disse Bolsonaro.

Além disso, seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, replicou um vídeo no qual um youtuber chama o presidente Macron de “idiota”. O tuíte de Eduardo, cotado para assumir a embaixada do Brasil em Washington, foi considerado uma grosseria sem precedentes.

Este é o segundo episódio de desavença com o governo francês em menos de dois meses. Em julho, Bolsonaro cancelou em cima da hora uma reunião com o chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, e fez uma live cortando o cabelo no horário em que estaria reunido com o diplomata.

Brigitte Macron, primeira-dama da França - Thomas Samson/AFP

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sábado, 24 de agosto de 2019

Durante discurso sobre Amazônia na TV, Bolsonaro estava em show de comédia

Presidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama Michelle com o humorista Jonathan Nemer

Talita Marchao
Do UOL, em São Paulo

Enquanto o Brasil assistia ao pronunciamento em rede nacional feito pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) sobre a crise envolvendo as queimadas na Amazônia, o mandatário assistia um show de "stand up comedy" do humorista gospel Jonathan Nemer em Águas Claras, na região metropolitana de Brasília. O pronunciamento foi marcado por panelaços em cidades brasileiras.

Com ingressos esgotados, o show de Jonathan Nemer começou por volta das 20h, e o pronunciamento de Bolsonaro, que tinha sido gravado horas antes, foi ao ar às 20h30. A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também foi ao evento. Às 20h10, o humorista postou em suas redes sociais uma foto com o casal no camarim.

O compromisso do casal não constava na agenda oficial do presidente. Procurado pela reportagem do UOL hoje, o Planalto afirmou que, por se tratar de um evento particular de Bolsonaro, não poderia dar mais informações sobre a presença do presidente ou da primeira-dama no show.

A assessoria de imprensa do Planalto também recusou-se a responder se Bolsonaro assistiu ao próprio pronunciamento às 20h30, confirmando apenas que ele foi aprovado pelo presidente.

Segundo o jornal Valor Econômico, Bolsonaro permaneceu cerca de uma hora e meia no local, e deixou o teatro da Caesb (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal) por uma saída auxiliar, enquanto Michelle saiu por outra porta do prédio.

Em seu Instagram, Nemer contou que a previsão era a de que apenas Michelle e alguns amigos comparecessem ao show. A presença de Bolsonaro foi surpresa para o humorista, que se mostrou bastante emocionado com a aparição do presidente.

No fim da apresentação, Nemer publicou ainda um vídeo em que a plateia grita "mito" e aplaude o presidente, que está no meio do público e acena para a câmera. O humorista mostrou ainda que ganhou chocolates de Michelle após o show.

Em vídeos publicados no Instagram, Nemer diz que aguardava Bolsonaro e Michelle terminarem de tirar foto com o público após o fim da apresentação para receber o casal. Ele chegou a brincar que o presidente comeu toda a comida do seu camarim.

O humorista, cujo show é considerado "sem censura" por não conter palavrões, também vestiu uma camisa vermelha do time de futebol americano Atlanta Falcons com o número 17, o mesmo da sigla do PSL, o partido de Bolsonaro.

"Não acreditou quando eu falei que iria, né @jonathannemer a presença do presidente foi um bônus. Foi show gigante. Deus continue abençoando a sua vida", disse Michelle nos comentários da foto postada pelo humorista apoiador de Bolsonaro.

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Macron acusa Bolsonaro de ter “mentido” sobre o clima e se opõe ao acordo com o Mercosul

A destruição da floresta por desmatamentos e incêndios criminosos 

El País 
Por Silvia Ayuso - Paris / Dublin

Irlanda também ameaça bloquear o tratado se o Brasil não proteger a Amazônia dos incêndios. Alemanha, Canadá e Reino Unido reiteram preocupação com queimadas

O embate entre o Brasil e a França sobre os incêndios devastadores na Amazônia endureceu. Horas depois de o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciar sua intenção de incluir esta “crise internacional” na cúpula do G7 que ele organiza neste fim de semana em Biarritz, o Governo francês deu um passo além e agora ameaça bloquear o acordo da União Europeia com o Mercosul por causa das "mentiras" do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, em matéria de compromisso com o meio ambiente. O presidente brasileiro, que se reuniu com ministros nesta sexta-feira para tratar sobre como o Governo reagirá às queimadas florestais, disse pela manhã, ao deixar o Palácio da Alvorada, que a “tendência” é enviar militares para ajudar no combate aos incêndios na região da Amazônia.

“Em vista da atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente da República não tem escolha a não ser constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele durante a cúpula de Osaka" do G20 em junho, comunicou o Palácio do Eliseu. Para o Governo francês, está claro que "o presidente Bolsonaro decidiu não respeitar seus compromissos com a mudança climática nem agir na questão da biodiversidade". “Nestas condições, a França se opõe ao acordo com o Mercosul", conclui a breve, mas contundente mensagem francesa sobre o tratado de livre comércio assinado entre a União Europeia e o Mercosul (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai) em junho, depois de duas décadas de negociações.

A decisão da França é uma resposta taxativa a Bolsonaro, que nesta quinta-feira disse que, com a intenção de incluir os incêndios na Amazônia na agenda do G7, Macron quer "instrumentalizar" uma questão interna brasileira para "obter créditos políticos pessoais" e qualificou essa atitude de "colonialista". Também acusou países que dão dinheiro para a preservação da floresta de "interferir na soberania do Brasil".

No entanto, nesta questão, Macron não está sozinho. A chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, está "convencida" de que os incêndios na Amazônia "precisam estar na agenda do G7" porque, como Macron disse nesta quinta-feira ao falar sobre "crise internacional", a Alemanha considera que a amplitude da catástrofe é "assustadora e ameaçadora não só para o Brasil e os demais países envolvidos, mas o mundo inteiro", disse o porta-voz da chefe do Governo, Steffen Seibert, em Berlim, nesta sexta-feira. Na quinta-feira, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também endossou o discurso do colega francês e disse que "não poderia concordar mais" com a preocupação de Macron. Nesta sexta-feira, o premiê britânico, Boris Johnson, também disse estar “profundamente preocupado” com as queimadas na Amazônia e defendeu que o assunto seja debatido no G7.

    "I couldn’t agree more, @EmmanuelMacron. We did lots of work to protect the environment at the #G7 last year in Charlevoix, & we need to continue this weekend. We need to #ActForTheAmazon & act for our planet — our kids & grandkids are counting on us." https://t.co/KwaR8Eevq5
    — Justin Trudeau (@JustinTrudeau) August 23, 2019

A Irlanda também está disposta a bloquear o acordo entre a União Europeia com o Mercosul se o Brasil não mudar de atitude, alertou seu primeiro ministro, Leo Varadkar. O chefe do Governo irlandês também criticou o presidente brasileiro por suas acusações na quarta-feira, nas quais afirmou que as ONGs que lutam pela proteção do meio ambiente são as responsáveis pelos incêndios. Varadkar considerou estas acusações orwellianas, segundo o jornal The Irish Independent. O Executivo irlandês está passando por um momento de grande pressão dos produtores de carne bovina, que temem que o acordo com o Mercosul –associação que agrupa Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai– os prejudique por causa da chegada ao país de produtos sul-americanos mais baratos.

Até agora, o Governo irlandês vinha mantendo a intenção de revisar o acordo ponto por ponto antes de decidir ratificá-lo ou não. Mas desde que os dados do aumento notável de incêndios na floresta amazônica foram revelados – de 83% a mais até agora este ano, em comparação com o mesmo período de 2018– e as acusações de Bolsonaro às ONGs, Varadkar afirmou que "não há como a Irlanda apoiar um tratado de livre comércio se o Brasil não cumprir suas obrigações com o meio ambiente”. Anteriormente, a França também ameaçara vetar o pacto comercial se o Brasil decidisse abandonar o acordo de Paris de combate às mudanças climáticas. A França nomeou uma comissão de especialistas independentes que deve apresentar um relatório ao Governo sobre várias questões do pacto, incluindo seus efeitos sobre os gases do efeito estufa, desmatamento e biodiversidade, conforme anunciou no mês passado.

    "The fires ravaging the Amazon rainforest are not only heartbreaking, they are an international crisis. We stand ready to provide whatever help we can to bring them under control and help protect one of Earth’s greatest wonders."
    — Boris Johnson (@BorisJohnson) August 23, 2019

O Comissariado de Comércio da UE calcula que o tratado não entrará em vigor antes de dois anos, durante os quais o Executivo irlandês pretende monitorar as ações ambientais do Brasil. O primeiro-ministro argumentou que os agricultores europeus não podem ser obrigados a seguir uma série de normas rígidas, como a redução de pesticidas e fertilizantes, "se não chegarmos a um firme acordo com medidas aceitáveis em termos de trabalho, meio ambiente e qualidade do produto". O acordo "faz isso", mas precisa ser monitorado de perto, acrescentou Vadkar.

A Comissão Europeia informou nesta sexta-feira que está preparada para prestar assistência às autoridades brasileiras e bolivianas na luta contra os incêndios florestais que afetam múltiplas áreas da Amazônia, com os quais se declarou "profundamente preocupada". "Estamos em contato com as autoridades brasileiras e bolivianas e estamos prontos para ajudar de qualquer maneira que pudermos, seja enviando assistência ou ativando o sistema de satélites Copernicus", disse a porta-voz da comunidade, Mina Andreeva, na coletiva de imprensa diária da instituição.

A verdade é que os incêndios no Brasil não são os únicos que estão devastando o subcontinente americano. Bolívia e Paraguai concordaram nesta quinta-feira em unir esforços para combater o gigantesco incêndio florestal que se alastra por ambos os territórios e está devastando a flora e a fauna. A superfície afetada no departamento boliviano de Santa Cruz (leste do país) já chega a 654 mil hectares, enquanto no Paraguai os focos ígneos, na fronteira com a Bolívia, ainda não foram quantificados.

Países vizinhos oferecem ajuda ao Brasil

Os Governos do Chile, Venezuela e Argentina ofereceram ajuda ao Brasil para mitigar os incêndios que afetam a Amazônia e devastaram milhares de hectares. O ministro da Agricultura chileno, Antonio Walker, informou que entrou em contato com a titular do mesmo cargo no Brasil, Tereza Cristina Dias, para oferecer "toda a nossa ajuda para enfrentar o grave incêndio na Amazônia".

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, também anunciou que pôs à disposição do Brasil e Bolívia o sistema de emergências de seu país. "Entrei em contato com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para acompanhar de perto a gestão da emergência. Estamos comprometidos a ajudar nossos vizinhos a combater os incêndios florestais", disse em sua conta na rede social Twitter.

O Governo venezuelano expressou preocupação com os incêndios no "pulmão vegetal da Terra", fez um chamado à "consciência" e ofereceu "ajuda imediata para mitigar esta dolorosa tragédia".

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Cidades brasileiras registram panelaço durante pronunciamento de Bolsonaro sobre queimadas na Amazônia

População bate panelas enquanto Bolsonaro discursou na TV

Por G1

Presidente falou em 'tolerância zero' com criminalidade na área ambiental ao comentar combate aos incêndios que têm afetado a região; mais cedo, ele havia autorizado uso das Forças Armadas. 

Cidades brasileiras registraram panelaços na noite desta sexta-feira (23) durante pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro sobre as queimadas na Amazônia. Ele falou em rede nacional de rádio e TV.

    "A proteção da floresta é nosso dever. Estamos cientes disso e atuando para combater o desmatamento ilegal e qualquer outra atividade criminosa. (...) Somos um governo de tolerância zero com a criminalidade, e na área ambiental não será diferente", disse.

O pronunciamento foi motivado pelas queimadas na Amazônia, que ganharam repercussão internacional, com protestos e manifestações de líderes mundiais. Na declaração desta sexta, Bolsonaro disse ainda que incêndios não justificam eventuais sanções de outros países.

Ele atribuiu às condições climáticas a ocorrência das queimadas e ofereceu ajuda aos governos estaduais da Amazônia Legal que solicitarem o emprego das Forças Armadas. Mais cedo, Bolsonaro havia assinado um decreto para autorizar o uso das Forças no combate aos incêndios.

Foram ouvidos panelaços em: São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Distrito Federal, Brasília, Belo Horizonte, Recife, Florianópolis, Porto Alegre, Salvador, Belém e Maringá

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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Deltan mudou contratos de palestras, e filantropia ficou de lado, apontam mensagens

Deltan Dallagnol durante palestra no Café Journal

Flavio Ferreira, da Folha
Amanda Audi, Leandro Demori e Alexandre de Santi, do The Intercept Brasil
São Paulo e Rio de Janeiro

Desde 2017, procurador deixou doações em 2º plano e arrecadou ao menos R$ 580 mil; ele diz que seu propósito é cidadania

​​A atividade de palestras remuneradas do procurador da República Deltan Dallagnol, coordenador da Operação Lava Jato, passou por mudanças contratuais para deixar de ter a filantropia como principal destino dos valores.

Ele começou a focar o meio empresarial e arrecadou ao menos R$ 580 mil a partir de 2017, apontam diálogos e documentos obtidos pelo The Intercept Brasil e analisados em conjunto com a Folha.

Mensagens, planilhas, recibos e contratos que circularam no aplicativo Telegram de Deltan indicam um contraste entre os argumentos da defesa apresentada por ele à Corregedoria do Ministério Público em junho de 2017, que levaram ao arquivamento de uma reclamação disciplinar, e a conduta do procurador em relação às palestras a partir daquele ano.

Deltan sempre se recusou a divulgar a relação de empresas e entidades que pagaram por suas palestras, bem como as remunerações recebidas por esse trabalho.

A lista de contratantes do procurador traz unidades da operadora de planos de saúde Unimed, firmas do mercado financeiro e associações industriais e comerciais.

O valor de cada palestra variou entre R$ 10 mil e R$ 35 mil. O total arrecadado com elas a partir do início da Lava Jato passou de R$ 1 milhão caso sejam somadas as quantias que Deltan também destinou para instituições filantrópicas —isso ocorreu principalmente em 2016.

Conforme mostrou a Folha em 14 de julho deste ano, Deltan montou um plano de negócios no ano passado para lucrar com a fama da Lava Jato. Com um colega, cogitou abrir uma empresa em nome de suas mulheres para evitar questionamentos legais. As revelações levaram à abertura de novas reclamações disciplinares contra ele na Corregedoria.

Em nota, Deltan diz que, na soma de 2016 a 2018, destinou a maior parte dos valores para atividade beneficente ou ações anticorrupção, incluindo uma reserva de R$ 184 mil que mantém em aplicação financeira e que ele diz planejar para essa última finalidade. Ele não comenta as mudanças ocorridas especificamente após 2017.

O chefe da força-tarefa apresentou em junho de 2017 uma resposta a uma reclamação disciplinar sobre as palestras que havia sido protocolada na Corregedoria do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) pelos deputados federais Paulo Pimenta (PT-RS) e Wadih Damous (PT-RJ).

Nessa manifestação, Deltan alegou que suas palestras deveriam ser enquadradas como atividade docente, o que é permitido por lei. Também argumentou que a atividade tinha como objetivo principal promover combate à corrupção e colaborar com ações de filantropia e sociais.

Segundo Deltan, até 2016 a maior parte do valor arrecadado com as palestras havia sido doada ao Hospital Oncopediátrico Erasto Gaertner, de Curitiba. A instituição médica informou à época ter recebido R$ 219 mil (R$ 240 mil em valores atualizados) do procurador.

No ofício à Corregedoria em junho de 2017, Deltan disse, porém, que tal procedimento havia mudado a partir daquele ano. Desde então, os contratos, de modo geral, não têm mais destinação automática de valores para entidades filantrópicas.

“Em 2017, após descontado o valor de 10% para despesas pessoais e os tributos, os valores das palestras sobre corrupção e ética em grandes eventos estão sendo destinados, até hoje, a um fundo que será empregado, ao tempo oportuno, em despesas ou custos decorrentes da atuação de servidores públicos em operações de combate à corrupção, tal como a Operação Lava Jato, para o custeio de iniciativas contra a corrupção e a impunidade, ou ainda para iniciativas que objetivam promover, em geral, a cidadania e a ética”, de acordo com a manifestação.

“Presto esses esclarecimentos para deixar claro para a sociedade que o objetivo das palestras não é enriquecer, mas sim contribuir com a causa cívica, embora eu pudesse legalmente dar destinação pessoal aos recursos, como muitos profissionais da área pública e privada fazem”, completou o procurador.

A Corregedoria do CNMP considerou procedentes as alegações de Deltan, ressaltando a destinação da remuneração no ano anterior para entidades filantrópicas, e arquivou a reclamação disciplinar.

Porém as mensagens e papéis examinados pela Folha e pelo Intercept não permitem constatar a formação do fundo mencionado pelo procurador à Corregedoria. Além de não haver mais previsão contratual nas palestras, a reportagem também não encontrou menções ou registros de altos valores de contribuições para caridade por parte de Deltan desde 2017.

Essa documentação mostra que Deltan usou em 2016 um tipo de contrato que previa a cobrança de valores pelas palestras, porém com destinação direta para a conta corrente do Hospital Erasto Gaertner.

Esse padrão mudou no ano seguinte, quando os contratos passaram a prever depósitos na conta corrente do procurador.

Um dos documentos de 2017 faz referência ao fundo de incentivo ao combate à corrupção mencionado por Deltan à Corregedoria, mas contratos de 2018 e 2019 já não previam esse tipo de destinação.

Exemplos de contratos das palestras do procurador Deltan Dallagnol - Reprodução

A reportagem examinou os valores de 20 palestras de Deltan pagas ou programadas entre fevereiro de 2017 e fevereiro de 2019, conforme diálogos, planilhas, recibos e contratos que circularam em grupos de conversas do procurador. A maioria delas teve como tema corrupção e ética nos negócios.

Em valores atualizados pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), a soma das remunerações dos eventos desde 2017 encontrados na documentação é de cerca de R$ 580 mil.

Um quarto das palestras verificadas pela reportagem foi para unidades do plano de saúde Unimed. Os eventos foram remunerados pelas Unimeds central e de Santa Catarina, Porto Alegre, Presidente Prudente (SP) e Assis (SP).

Em uma ocasião, Deltan solicitou que a responsável pela organização de suas palestras pedisse à Unimed que o contratasse para palestrar em Salvador, pois ele queria ir à capital baiana promover uma campanha.

Essa solicitação foi feita a Fernanda Cunha, dona da firma Star Palestras, em 18 de julho de 2018. “Fernanda, será que a Unimed Salvador não quer me contratar pra uma palestra na semana de 24 de setembro?”, escreveu o procurador.

Cunha indagou se o procurador iria estar na cidade naquele dia, e Deltan respondeu negativamente. “É que não tenho nada relevante em Salvador e queria ir pra lá pra espalhar a campanha. Como Vc sempre tem contatos na Unimed, pensei que podia ser uma boa”, explicou o procurador.

A dona da empresa de eventos disse que iria verificar se o pedido de Deltan poderia ser atendido, mas não há na documentação registros de que a palestra tenha ocorrido.

O procurador também foi remunerado por instituições e firmas do mercado financeiro, da indústria e do comércio, como Febraban (Federação Brasileira de Bancos), B3, XP e Centro Industrial do Ceará (CIC).

As mensagens no Telegram mostram que o procurador receava que a divulgação dos dados de suas palestras pudesse levar à descoberta de situações embaraçosas e consequentemente promover questionamentos legais e críticas.

Em 3 de julho de 2017, após um pedido de esclarecimentos da Folha sobre o assunto, Deltan disse a um assessor da Procuradoria que colegas da força-tarefa da Lava Jato compartilhavam dessa preocupação.

“Tenho pensado se devo soltar os nomes dos tomadores, mas o pessoal da FT acha que não, pq vão fuçar para dizer que um diretor da entidade tem isso ou aquilo, que o médico vinculado àquela unimed tá procesado por sonegação ou isso ou aquilo... acham que quanto mais ficar dando corda, pior será”, afirmou o procurador.

O assessor concordou com a posição de Deltan: “Sim, vão acabar querendo especular que vc deu palestra em entidade de tal pessoa que já foi citada em algo.... etc...”.
As mensagens são reproduzidas pela Folha com a grafia encontrada nos arquivos originais obtidos pelo Intercept, incluindo erros de português e abreviaturas.

O procurador buscou evitar até mesmo que a Corregedoria-Geral do Ministério Público Federal, órgão interno de fiscalização dos procuradores da República, tivesse acesso às informações sobre as palestras, como a Folha e o Intercept informaram em 8 de agosto.

A falta de transparência sobre as palestras remuneradas realizadas por membros do Ministério Público difere do que é previsto em lei para os juízes brasileiros.

Os magistrados são obrigados a informar quem são os contratantes de suas palestras para que os dados sejam publicados nos sites dos tribunais, conforme resolução do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O objetivo da regra é permitir a verificação pública de eventuais situações de conflitos de interesse.

Outro lado

O procurador Deltan Dallagnol afirma que, ao longo dos anos, destinou a maior parte dos valores arrecadados com palestras para atividade beneficente ou anticorrupção.

Ele inclui em seu cálculo a quantia de R$ 184 mil, hoje em aplicação financeira, que diz reservar para fazer investimentos futuros em ações de combate à corrupção.

O coordenador da Lava Jato diz que já realizou doações a instituições filantrópicas que totalizam cerca de R$ 100 mil além das contribuições feitas ao Hospital Erasto Gaerter em 2016.

Segundo Deltan, a maioria de suas palestras é gratuita e a atividade é legal, legítima e positiva para a sociedade.

“O propósito da atividade é promover cidadania e o combate à corrupção. No caso de palestras remuneradas, são regularmente declaradas em Imposto de Renda”, afirma em nota.

Apesar de a Folha ter pedido ao procurador esclarecimentos sobre a situação após as mudanças nos contratos das palestras, a partir de 2017, quando elas passaram a deixar a filantropia em segundo plano, Deltan fez considerações abrangendo fatos de 2016, ano em que ainda dedicava a maior parte dessa remuneração para entidades assistenciais.

*Veja as possíveis consequências do vazamento de mensagens entre Moro e Deltan

*Segundo advogados, as conversas entre Deltan (esq) e Moro podem levar à anulação de condenações pois, de acordo com o Código de Processo Penal, um juiz não pode aconselhar as partes do processo

*A defesa do ex-presidente Lula anexou as mensagens vazadas ao processo em que pede a anulação da condenação proferida por Moro por considerar o juiz suspeito (comprometido com uma das partes); o caso começou a ser discutido no STF, e espera-se que o julgamento seja retomado a partir de agosto

Em sua resposta, o procurador também não contempla as receitas obtidas em 2019.

O procurador afirma que “ficou com menos de 40% dos valores das palestras prestadas desde 2016 até 2018 que envolveram pagamentos”, e, assim, “a maior parte dos valores tem sido destinada para atividade beneficente ou anticorrupção”.

Deltan diz que, desde 2016, a atividade de palestras “tem resultado em um benefício econômico direto para a sociedade de R$ 734.774,14”.

Para chegar a esse total, o procurador inclui cerca de R$ 200 mil que diz ter recolhido em tributos entre 2016 e 2018 em função da atividade de palestras, os R$ 184 mil atualmente em aplicação financeira para investimento futuro no combate à corrupção e os R$ 247 mil (em valores atualizados) doados ao Hospital Erasto Gaerter em 2016. Nessa conta entram também outras doações que somam cerca de R$ 100 mil.

Em resposta à Folha, o procurador afirmou que acertou a realização de novas doações para filantropia principalmente a partir de abril 2019, sendo beneficiadas no período as entidades ONG Amigos do Bem (R$ 10 mil), Acridas, que cuida de crianças e adolescentes em situação de risco (R$ 20 mil), Hospital Cajuru (R$ 20 mil) e Fundação Lia Maria Aguiar (R$ 10 mil).

Segundo Deltan, "Somando-se a esse montante [R$ 734 mil] o valor com o qual o procurador ficou de 2016 e 2018 (valores já apurados), a parcela do procurador corresponde a menos de 40% do total". Indagado pela reportagem, o procurador preferiu não revelar o valor exato do total da remuneração das palestras destinada para fins pessoais.​

Os diálogos sobre a atividade de palestras

Em julho de 2017, o procurador Deltan Dallagnol conversou com dois assessores da Procuradoria no Paraná sobre um pedido de esclarecimento da Folha a respeito da atividade de palestras 

3 de julho de 2017
Assessor 1
20:27:01 Folha e as palestras... Querem respostas.?

Assessor 2
20:31:26 Ele vai ser o personagem da matéria? Ela não especificou se vão falar com outras pessoas...

20:48:26 Melhor responder, pq vão fazer a matéria de qualquer jeito. Responder de forma clara, sem deixar brechas. E se sair algo fora de contexto teremos o email que vamos enviar. Há como levantar quantas palestras/pra quem ocorreram? Terceira pergunta pode-se aproveitar resposta enviada ao Valor. Última pergunta - tranquilo de responder. A segunda que tem que explicar direito.

Deltan Dallagnol
20:52:14 Acho que o caso é de enviar minha resposta para a corregedoria e pronto

20:52:19 Vejam a resposta e vejam o que acham

Assessor 1
21:03:40 A resposta está muito boa. Embora não tenha tudo que a Folha pediu, acho que podemos mandar do jeito que está.

Deltan
21:17:22 Tenho pensado se devo soltar os nomes dos tomadores, mas o pessoal da FT acha que não, pq vão fuçar para dizer que um diretor da entidade tem isso ou aquilo, que o médico vinculado àquela unimed tá procesado por sonegação ou isso ou aquilo... acham que quanto mais ficar dando corda, pior será.

Assessor 2
21:23:12 Sim, vão acabar querendo especular que vc deu palestra em entidade de tal pessoa que já foi citada em algo.... etc...

21:26:25 Negócio é que haverá a possibilidade de sair algo negativo ou não.. vai depender...

Deltan enviou em julho 2018 um pedido a Fernanda Cunha, dona da empresa Star Palestras, para que ela buscasse viabilizar uma palestra dele em Salvador 

18 de julho de 2018
Deltan
21:14:53 Fernanda, será que a Unimed Salvador não quer me contratar pra uma palestra na semana de 24 de setembro?

29 de julho de 2018
Fernanda Cunha
01:09:05 Nao tinha visto essa mensagem. Vc estará por lá nesta ocasiao?

Deltan
13:07:11 Não. É que não tenho nada relevante em Salvador e queria ir pra lá pra espalhar a campanha. Como Vc sempre tem contatos na Unimed, pensei que podia ser uma boa

Fernanda
19:07:49 Ok, vou falar com eles

A transcrição das mensagens manteve a grafia original dos arquivos obtidos pelo The Intercept

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Como os grandes bancos escaparam da Lava Jato


O ex-ministro Antonio Palocci afirmou que conseguia informações privilegiadas com o então presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e as repassava ao Bradesco. Meirelles diz que "afirmação é absurda". Na imagem, Palocci e Meirelles em 2003

|MARINA ROSSI
|REGIANE OLIVEIRA
|DANIEL HAIDAR
|LEANDRO DEMORI|PAULA BIANCHI
São Paulo / Rio De Janeiro

Mensagens analisadas pelo 'The Intercept' e EL PAÍS mostram que força-tarefa de Curitiba preferiu buscar acordos a investigar acusações contra as instituições financeiras. Enquanto desenhava estratégia, Dallagnol fez palestra na Febraban

“O Banco, na verdade os bancos, faturaram muuuuuuito com as movimentações bilionárias dele”. A frase é do procurador Roberson Pozzobon, da força-tarefa de Curitiba da Operação Lava Jato, escrita numa troca de mensagens com seus colegas em 16 de outubro do ano passado. Pozzobon se refere às movimentações financeiras do empresário e lobista Adir Assad, condenado por lavagem de dinheiro, acusado de envolvimento em diversos escândalos de corrupção, incluindo o da Petrobras. Em conversas pelo Telegram, recebidas pelo The Intercept e analisadas em conjunto com o EL PAÍS, os procuradores debatiam o caso de Assad. Eles sabiam que o doleiro havia aberto uma conta no Bradesco nas Bahamas para lavar dinheiro “a rodo”. E que, em 2011, o Compliance Officer, setor responsável por fazer o banco cumprir normas legais, teria alertado o Bradesco de que havia algo errado com essa conta. “E o que o Bradesco fez?”, perguntou Pozzobon. “Nada”, ele mesmo responde.

Passaram pelas mãos dos procuradores suspeitas de crimes graves cometidos pelo setor bancário, um dos mais concentrados e lucrativos do mundo. Desde o eventual silêncio sobre movimentações ilícitas até o uso de informações privilegiadas do Banco Central que renderiam lucros aos bancos. Em troca, generosas quantias seriam doadas para campanhas políticas de governos petistas, conforme afirmou o ex-ministroAntonio Palocci ao longo de 2017, quando negociava sua delação premiada em Curitiba. Os procuradores não aceitaram a palavra de Palocci, nem como base de uma colaboração premiada e nem, pelo que se sabe até agora, como ponto de partida para investigação dos crimes de grandes instituições financeiras dos quais ele dizia ter participado ou presenciado. Dentre os deveres do Ministério Público previstos em lei, está o de “adotar as providências cabíveis em face de irregularidades de que tiver conhecimento”, em especial quando relacionadas a casos em que atuam. Ao longo das 87 páginas de proposta de delação premiada do ex-ministro entregue à força-tarefa e obtida pelo EL PAÍS, o banco Safra aparece 71 vezes . O Bradesco, outras 32.

Antes das negociações com Palocci, porém, os procuradores já levantavam a tese de que os bancos lucraram com a corrupção, preferindo o silêncio ao escrutínio de movimentações suspeitas, como mostra o diálogo no início deste texto. Embora a hipótese parecesse plausível, a força-tarefa estabeleceu como estratégia fazer acordos com essas instituições, em vez de investigá-las esmiuçando seu modus operandi, a exemplo do que foi feito com as empreiteiras. É o que se constata no documento “Ideias e Metas FTLJ 2017_2018”, enviado em um dos chats em 2016, que trazia um resumo das ações futuras para cercar as empreiteiras, bancos, doleiros e políticos. Nessa lista, constavam nomes, como o da ex-presidenta Dilma Rousseff e o de Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da estatal Dersa e acusado de ser o operador financeiro do PSDB. Para empreiteiras, a meta era apresentar ações penais já que era “necessário responsabilizar todas as empresas”. No caso dos bancos, no entanto, descreve-se o objetivo de fazer acordos “a título de indenização por lavagem de dinheiro e falhas de compliance”. Essa opção, segundo conversa entre os procuradores, levava em conta o chamado "risco sistêmico", conceito financeiro que supõe um possível efeito dominó para a economia. 

Planilha 'Ideias e Metas' para 2017-2018

Contudo, essa mesma lógica não valeu para as construtoras. Segundo um levantamento do jornal Valor Econômico, a receita das companhias envolvidas na Lava Jato caiu 85% desde 2015 —ainda mais asfixiadas pelo corte de investimento público em obras— e dezenas de milhares de empregos foram perdidos. Em meados daquele ano, a operação já se consagrava na imprensa por expor o maior escândalo de corrupção da história do país. Marcelo Odebrecht, o empresário multimilionário, já estava atrás das grades. Outros personagens estavam sendo presos por movimentar dinheiro da corrupção em malas, pacotes e até na calcinha, como no caso da doleira Nelma Kodama, presa e condenada em 2014.

Faltava, porém, entender a responsabilidade dos bancos nessa lavanderia. Dias antes da prisão de Odebrecht, o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, enviou uma mensagem ao então procurador Carlos Fernando Lima perguntando quais eram as “violações de grandes bancos" mais evidentes que eles tinham. Dallagnol pede que Lima mencione as duas "mais fortes". "Fazer uma ação contra um banco pedindo pra devolver o valor envolvido na lavagem, ou, melhor ainda, fazer um acordo monetário, é algo que repercutiria muito, mas muito, bem" para a força-tarefa, dizia ele. Pela mensagem, parecia que a chegada da operação aos bancos era uma questão de tempo.

Lima então sugere pedir ajuda a Lucas Pacce. Operador de câmbio e o primeiro delator da Lava Jato, Pacce prestou informações sobre bancos e a doleira Nelma Kodama, com quem ele trabalhava. Grande conhecedor do sistema financeiro, ele já havia dito às autoridades, durante a CPI da Petrobras em 2015, que existem brechas legais e “propositais” que permitem a lavagem de dinheiro, à margem da fiscalização do Banco Central. De lá para cá, a Lava Jato contra os bancos andou a passos muito lentos, enquanto as construtoras eram devassadas.

Em 21 de outubro de 2016, Dallagnol envia uma mensagem sugerindo a instalação de um Inquérito Civil Público (ICP) para apurar as falhas de compliance dos bancos. A ideia, segundo ele, era “pintar tempestade na portaria”, ou seja, solicitar informações sobre investigações internas e assim pressionar o setor a sentar à mesa de negociação com a força-tarefa. 

Dallagnol propõe pedir informações aos bancos em vez de investigá-los

Mas foi só em maio de 2019 que a Lava Jato chegou de fato à primeira instituição bancária. No dia 8 daquele mês, foram presos três executivos do Bancos Paulista, acusados de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta para beneficiar a Odebrecht. Três meses antes, o procurador Roberson Pozzobon comemorava a autorização judicial para essa operação. “Chutaremos a porta de um banco menor, com fraudes escancaradas, enquanto estamos com rodada de negociações em curso com bancos maiores. A mensagem será passada! 💪👊”, afirma Pozzobon. “show!!! vai ter muita gente que vai começar a perder o sono, rs”, responde a procuradora Laura Tessler. No mesmo mês de maio, a força-tarefa do Rio de Janeiro prendeu dois gerentes de uma agência carioca do Bradesco, também acusados de lavagem de dinheiro da construtora.

Se a morosidade da Lava Jato para chegar a instituições bancárias chama a atenção, outro fato não passa desapercebido. No dia 17 de outubro de 2018, Deltan Dallagnol deu uma palestra paga pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) sobre prevenção e combate a lavagem de dinheiro, como confirmou a entidade. Dallagnol recebeu 18.088 reais líquidos, quase o que ganhou naquele mês inteiro de trabalho: 22.432 reais de salário líquido, segundo o Portal da Transparência. Poucos meses antes, em maio, ele havia negociado uma palestra para CEOs e tesoureiros de grandes bancos brasileiros e internacionais, organizada pela XP Investimentos. Entre os convidados, representantes do Itaú, Bradesco e Santander. O procurador participou, ainda, de um encontro secreto com representantes de instituições financeiras organizada pela mesma XP. O The Intercept já havia mostrado que ele previa faturar 400.000 reais com livros e palestras em 2018. 

Recibo da palestra de Dallagnol à Febraban

Curiosamente, dois dias antes da palestra para a Febraban, Dallagnol relatava aos procuradores uma certa angústia sobre a atuação do setor bancário. “Estou preocupado com relação aos nossos passos em relação aos bancos”, escreve ele no chat Filhos do Januario 3. “Eu acho que eles vão se mover e vão mudar nosso cenário, via lei ou regulação (coaf, febraban…). São muito poderosos”.
A delação rejeitada de Palocci 

Primeira página da proposta da delação de Antonio Palocci à força-tarefa

Preso em setembro de 2016 por receber propinas da Odebrecht, o ex-ministro Antonio Palocci era visto como o homem-bomba das delações. Mas os procuradores avaliavam que era muito difícil comprovar tudo que o ex-ministro dizia, como por exemplo, as informações privilegiadas e leis facilitadas aos bancos em troca de doações de milhões de reais em campanhas petistas. “Os anexos precisam ser melhorados”, diziam, em referência à proposta de delação premiada composta por 39 anexos que a defesa de Palocci oferecia. Cada anexo equivale a um capítulo, tratando de um assunto ou pessoa. Nem mesmo as 359 citações nominais ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao longo do documento convenceram a força-tarefa. “Fizemos uma reunião aqui", diz o procurador Antonio Carlos Welter no chat COLAB Palocci, em 25 de janeiro de 2018. "Definimos que como os anexos estão sem elementos de corroboração suficientes, decidimos romper as negociações”, diz. “Ótimo. Página virada”, responde o procurador José Alfredo de Paula. 

Chat em que os procuradores decidem não aceitar a delação de Palocci

A proposta de delação do ex-ministro apresentava uma narrativa complexa sobre sua relação com poderosos, como Joseph Safra (Banco Safra), Pedro Moreira Salles (na época, do Unibanco), Lázaro Brandão e Luiz Carlos Trabuco (Bradesco), dentre outros. Sobre Safra, o ex-ministro conta que tinha “carta branca” para buscar recursos no banco sempre que ele ou Lula precisassem. Safra teria, inclusive, convidado Palocci para ser conselheiro em seu banco na Suíça. O empresário também teria pedido ajuda do Governo Federal para recuperar prejuízo que teve com a crise dos derivativos cambiais envolvendo uma das empresas em que tinha participação societária, a Aracruz, em 2008. A contrapartida frequente era a realização de doações eleitorais, além de pagamentos para a consultoria Projeto, que ele administrava. O Safra afirmou à reportagem que não vai se pronunciar sobre o caso.

Outros executivos do setor também iam pedir favores, conta Palocci. Segundo ele, o então economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, e Júlio Siqueira, vice-presidente executivo do banco, o procuraram em 2009 quando ele exercia o mandato de deputado federal. Os executivos pretendiam obter informações adiantadas do Banco Central sobre a mudança da taxa básica de juros, a Selic. Palocci conta que conseguia essas informações com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e repassava ao Bradesco. Em troca, o banco realizou doações oficiais para a campanha de Dilma Rousseff em 2010. Procurado, Octavio de Barros, que se desligou do banco em 2016, afirmou que "jamais" buscou informações que não fossem públicas. O Bradesco afirmou que não comentaria. A reportagem não conseguiu contato com Julio Siqueira, que deixou o banco em 2014. Já Henrique Meirelles, atual secretário da Fazenda do Governo João Doria (PSDB), disse que a afirmação de Palocci é "absurda, completamente descompassada com a realidade. Uma afirmação que ignora até mesmo o modo de funcionamento do Copom naquele período, onde os membros exerciam o voto de modo independente, e onde o presidente não tinha conhecimento prévio da opinião dos demais membros e votava apenas ao final".

Ainda como deputado, Palocci também relata que “sentou em cima” de um projeto de lei para evitar que a fusão dos bancos Unibanco e Itaú fosse prejudicada, em 2008. Ele afirma que, a pedido de Pedro Moreira Salles, banqueiro do Unibanco, articulou para que o Projeto de Lei 265/2007, que transferiria do Banco Central para o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) a análise dos casos de fusão bancária, fosse engavetado. Evitou assim que a fusão fosse vetada pelo princípio da livre concorrência, já que, juntos, os dois bancos dominariam mais de 30% do mercado. Em contrapartida, e como agradecimento, o novo banco Itaú Unibanco doou 4 milhões de reais para a campanha de Dilma Rousseff em 2010, segundo o ex-ministro. Procurado, o Itaú disse que a afirmação de Palocci é "mentirosa" e que naquele ano o montante doado aos candidatos que lideravam as pesquisas eleitoras foram "rigorosamente iguais".

As relações que Palocci contou ter com as instituições bancárias são ainda anteriores ao Governo PT. No ano 2000, quando o Santander comprou o Banespa, Palocci, então prefeito de Ribeirão Preto (SP), foi procurado por Miguel Jorge, na época diretor de relações governamentais do Santander/Banespa. Segundo Palocci, Jorge estava preocupado porque, com a compra do Banespa, muitas prefeituras que mantinham conta no banco estavam migrando para outras instituições. Palocci afirma que não faria isso, mas, em troca, pede doações do banco para a campanha do PT em 2002. O pedido, segundo ele, foi atendido na forma de 2 milhões de reais doados pelo Santander na campanha de Lula à Presidência. Procurado, o Santander afirmou que não se pronunciará.

Sem sucesso com a força-tarefa, os advogados do ex-ministro petista foram bater na porta da Polícia Federal. De acordo com uma lei sancionada em 2013, delegados de polícia podem conduzir acordos de delação, assim como os procuradores. A Procuradoria-Geral da República (PGR) tentou rechaçar no Supremo Tribunal Federal (STF) essa lei, mas em junho do ano passado os ministros rejeitaram, por maioria, o questionamento da PGR. Foi o caminho da salvação de Palocci. Na PF, as negociações avançaram: em três meses de tratativas, o ex-ministro assinou colaboração, em abril do ano passado. Em junho, às vésperas da campanha eleitoral para a presidência, o STF homologou sua delação.

A seis dias do primeiro turno da eleição presidencial, em outubro do ano passado, o então juiz Sergio Moro levantou sigilo de parte do depoimento de Palocci. Naquele momento, os procuradores repercutem nos chats: "Os relatos muito ruins", diz a procuradora Jerusa Viecilli. "O que palocci trouxe parece que está no Google", diz o procurador Januário Paludo. Na semana passada, foi noticiado um resumo feito pelo ministro do Supremo Edson Fachin de alguns depoimentos de Palocci.
O “risco sistêmico”

Com ou sem a colaboração de Palocci, um temor constante entre os procuradores para abordar os bancos é o risco sistêmico que poderiam promover. “O que nós temos a favor e que é uma arma que pode explodir é que uma operação sobre um grande banco pode gerar o tal do risco sistêmico. Podemos quebrar o sistema financeiro. Essa variável tem que ser considerada para o bem e para o mal”, escreveu o procurador Januário Paludo, em outubro do ano passado. “Por isso, estrategicamente, medidas ostensivas tem que ser tomadas em relação a pequenas instituições para ver o quanto o mercado vai reagir”, acrescentou. 

Procuradores temem o "risco sistêmico" que uma operação contra os bancos pode causar

O alerta para esse risco faz parte da rotina de juízes e procuradores, mas o advogado Domingos Refinetti, especialista em compliance, discorda do potencial explosivo que as investigações poderiam representar. “Por maior que pudesse ser a conta de um doleiro, nenhuma alta administração de banco correria o risco para proteger uma conta isolada. Bancos nunca poderiam ser considerados too big to jail (grande demais para alguém ir preso) se identificassem as figuras perniciosas e mandassem elas para a cadeia”, afirmou ele.

Um ex-diretor do Banco Central, que preferiu não se identificar, afirma que nos Estados Unidos, o Banco Central anuncia abertamente quando abre um processo contra algum banco por suspeitas de lavagem de dinheiro. “Isso pode até interferir no valor de ações dos bancos, mas não quer dizer que vá quebrar a instituição e é uma forma de transparência”, afirmou.

Procurada, a força-tarefa de Curitiba afirmou, por meio da assessoria de imprensa, que "é de conhecimento público que as forças-tarefas Lava Jato no Paraná e no Rio de Janeiro já adotaram diversas medidas de persecução criminal em face de integrantes de instituições financeiras, incluindo diretores e gerentes de bancos e corretoras". Também afirmou que "não reconhecesse as mensagens que lhe têm sido atribuídas. O material é oriundo de crime cibernético e sujeito a distorções, manipulações e descontextualizações". 

Em diversas conversas, os procuradores mostram que a estratégia era atingir um banco pequeno para deixar os maiores com medo. Na mensagem acima, "Rússia" seria a Justiça Federal, que autorizou a operação contra o Banco Paulista

Leia as íntegras de todas as respostas enviadas ao EL PAÍS:

A força-tarefa em Curitiba:
"A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba não reconhece as mensagens que lhe têm sido atribuídas. O material é oriundo de crime cibernético e sujeito a distorções, manipulações e descontextualizações. No presente caso, o site prejudicou o direito de resposta ao não disponibilizar o material para análise da força-tarefa. É de conhecimento público que as forças-tarefas Lava Jato no Paraná e no Rio de Janeiro já adotaram diversas medidas de persecução criminal em face de integrantes de instituições financeiras, incluindo diretores e gerentes de bancos e corretoras. A 61ª fase da Lava Jato, deflagrada em 8 de maio de 2019, resultou em prisão e denúncia contra dois diretores e um gerente do Banco Paulista pelos crimes de lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituição financeira. A força-tarefa não comentará sobre os desdobramentos desta ou das demais investigações em andamento em face de instituições financeiras e seus integrantes porque isso implicaria na revelação de informações que ocasionariam prejuízos às apurações."

O Itaú:
"O Itaú Unibanco repudia veementemente qualquer tentativa de vincular doações eleitorais realizadas de forma lícita e transparente a condutas antiéticas para atender a eventuais interesses da organização. O banco não teve acesso à delação nem às mensagens trocadas por celular, mas afirma, de forma enfática, que a declaração mencionada pelo jornal é mentirosa. Quando a legislação permitia, o banco fazia doações eleitorais, sempre seguindo um posicionamento apartidário. Contava, para isso, com um comitê formado por integrantes independentes do Conselho de Administração. Esse comitê definia os valores que seriam doados, sempre inferiores à média de grupos empresariais de porte semelhante ao nosso. Nos pleitos de 2006, 2010 e 2014, por exemplo, os montantes doados aos candidatos que lideravam as pesquisas de opinião foram rigorosamente iguais, conforme se pode constatar nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e na tabela que acompanha esta nota. Os números desmentem qualquer suposição de que o Itaú Unibanco tenha privilegiado esse ou aquele partido ou que tenha de qualquer forma feito doações eleitorais com o objetivo de obter benefício próprio. Em relação especificamente à fusão entre Itaú e Unibanco, anunciada em novembro de 2008 e aprovada pelas autoridades reguladoras competentes no início de 2009, vale destacar que foi respaldada pelos mais respeitados juristas do País e especialistas em setor financeiro, dada a complementariedade dos dois bancos e a posição da instituição resultante da fusão no cenário bancário global. Importante ainda destacar que as autoridades impuseram uma série de condições para aprovar a operação, todas inteiramente atendidas pelo Itaú Unibanco. O Itaú Unibanco lamenta que seu nome possa ter sido usado indevidamente para que um réu confesso tenha tentado obter vantagens em acordos com a Justiça. Como sempre, o banco está à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários".

Febraban:
O procurador do Ministério Público Federal (PR), Deltan Dallagnol, participou como palestrante do 8º Congresso de Combate e Prevenção a Lavagem de Dinheiro e Financiamento ao Terrorismo – evento promovido pela FEBRABAN e que ocorreu em 17 de outubro de 2018, em São Paulo. O tema de sua palestra foi A evolução da prevenção e combate à lavagem de dinheiro no Brasil. O procurador foi escolhido por preencher critérios técnicos relacionados ao tema e a sua participação foi remunerada e formalizada por meio de contrato.

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Incêndio na Amazônia é “crise internacional”, declara Macron

A Amazônia em chamas

Uol
Por Jamil Chade

Presidente da França anunciou que colocou o assunto brasileiro no centro da agenda da reunião de cúpula do G7, neste fim de semana

GENEBRA – O presidente da França, Emmanuel Macron, declarou que o incêndio na Amazônia é uma "crise internacional" e propôs que o assunto passe a fazer parte da agenda de reuniões do G7, que ocorre neste fim de semana na França.

Nas redes sociais, o francês não hesitou em tratar da situação da floresta brasileira. "Nossa casa está queimando", escreveu, numa frase que certamente causará forte reação na diplomacia brasileira. Nos últimos meses, o Itamaraty e o governo Bolsonaro tem insistido que a "Amazônia é nossa".

"A Amazônia, os pulmões que produzem 20% de nosso oxigênio, está queimando", escreveu. "Isso é uma crise internacional", alertou.

Macron então fez um chamado: "Membros do G-7, vamos discutir essa emergência de primeira ordem em dois dias". A reunião entre os líderes ocorre no fim de semana, com a presença de Angela Merkel e Donald Trump.

A floresta amazônica sendo destruída por desmatamentos  e incêndios criminosos

Há poucas semanas, Bolsonaro esnobou o chanceler francês, de passagem pelo Brasil. Cancelou um encontro por motivos de agenda e, no momento que deveria estar com o chefe da diplomacia de Paris, foi cortar o cabelo.

Paris tem alertado que apenas aceitará um acordo com o Mercosul se o Brasil se comprometer a seguir seus compromissos ambientais e não exportar produtos de áreas desmatadas. O governo francês iniciou um estudo sobre o impacto ambiental do acordo e em novembro anunciará os resultados.

A crise também chegou à cúpula da diplomacia mundial. Antônio Guterres, secretário-geral da ONU, saiu de seu tradições silêncio em temas polêmicos para pedir que a Amazônia seja protegida.

"Estou profundamente preocupado pelo fogo na floresta amazônica", escreveu, alertando que o mundo não poderia se dar ao luxo de perder tal "fonte de oxigênio".

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Bolsonaro: Diretor-geral da PF é subordinado a mim, não ao Moro

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Justiça, Sergio Moro

Estadão Conteúdo
Por Julia Lindner
Em Brasília

O presidente Jair Bolsonaro voltou a reforçar hoje que o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, é subordinado a ele, e não ao ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro. Bolsonaro não descartou a possibilidade de eventualmente trocar o chefe da PF.

"Se eu trocar (o diretor-geral da PF) hoje, qual o problema? Está na lei que eu que indico e não o Sergio Moro. E ponto final", declarou Bolsonaro em conversa com jornalistas, pela manhã. "Ele (Valeixo) é subordinado a mim, não ao ministro. Deixo bem claro isso aí. Eu é que indico. Está bem claro na lei", declarou.

Questionado se há, de fato, intenção de trocar o chefe da PF, Bolsonaro respondeu que, se o fizer, será "na hora certa". "Hoje eu não sei. Tudo pode acontecer na política", respondeu ao ser questionado se existe a possibilidade de troca nesta quinta-feira.

Ontem, o presidente afirmou ser um mandatário que pode "interferir mesmo" em alguns órgãos federais se for preciso. Hoje, reforçou o posicionamento dizendo que supostas ingerências são, na sua visão, uma forma de "mudança".

"Quero que se combata a corrupção, que façam as coisas da melhor maneira possível. Eu não estou acusando ninguém de fazer nada errado. Mas a indicação é minha. Por isso elegeram o presidente da República. Se não pudesse ter ingerência, interferência - para mim é mudança -, seria mantido o anterior, o cara que foi nomeado antes iria ficar até morrer", disse.

Ele reclamou de uma "onda terrível" que teria ocorrido após trocas nas superintendências da PF - que se intensificou com o anúncio do presidente sobre a saída do superintendente do Rio em coletiva de imprensa.

"Agora há uma onda terrível sobre superintendência. Onze (superintendentes) foram trocados e ninguém falou nada. Sugiro o cara de um Estado para ir para lá e dizem 'está interferindo'. Espera aí. Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral. Não se discute isso aí", afirmou.

"Se é para a não interferência, o diretor anterior, que é o que estava lá com o (ex-presidente Michel) Temer, tinha que ser mantido. Ou a PF agora é algo independente? A PF orgulha a todos nós, e a renovação é salutar, é saudável. O Valeixo pode querer sair hoje. Não depende da vontade dele", reforçou Bolsonaro.

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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Alcoolismo e Alzheimer entram na mira dos tratamentos com psicodélicos

Foto: Reprodução/ Getty Images

Por Marcelo Leite | Folhapress

Numa conferência sobre substâncias psicodélicas como a Breaking Convention, encerrada no domingo (18) em Londres, encontra-se de tudo. Inclusive o inesperado: uma ligação entre Alzheimer e ayahuasca, ou mesmo quem se disponha a dar a beberagem para palestinos e israelenses se entenderem.

Psicodélicos são compostos, como LSD, psilocibina e ibogaína, capazes de induzir estados alterados de consciência. Apesar de classificados como drogas, passam no presente por um renascimento científico, por seu potencial como terapia para diversas condições, da depressão à dependência química.

Uma das novidades do congresso foi apresentada por Ben Sessa, do Imperial College (Reino Unido). Ele trabalha no recém-criado Centro para Pesquisa Psicodélica da instituição, dirigido por Robin Carhart-Harris.

Sessa coordena um estudo sobre segurança do uso de MDMA (principal componente do ecstasy) no tratamento da dependência de álcool. O resultado preliminar saiu em março no periódico British Medical Journal.

A pesquisa com 11 pacientes mostrou que a terapia é segura, seu objetivo específico. Mas também que, nove meses depois, a maioria dos participantes se recuperou da dependência. Foram oito semanas de psicoterapia, com duas doses de MDMA, na terceira e na sexta semana.

Só um paciente teve recaída completa, voltando ao nível original de consumo. Os outros ou estão abstêmios ou bebem quantidades que não mais os qualificariam como dependentes. Na Inglaterra, 8 em 10 que enfrentam outros tratamentos acabam voltando ao álcool.

MDMA já está na vanguarda psicodélica com um estudo de fase 3 nos EUA que deve conduzir à autorização da agência de fármacos FDA para dar suporte a psicoterapia de pessoas com transtorno de estresse pós-traumático. As conclusões do teste clínico devem sair em 2 ou 3 anos.

A substância parece funcionar facilitando o acesso psíquico aos eventos traumáticos sem reviver o sofrimento emocional associado. Para Sessa, o sucesso no caso do álcool pode vir do fato de que a dependência muitas vezes ocorre em pessoas com traumas de infância.

O elo alzheimer-ayahuasca, por sua vez, foi tema da palestra de Stevens Rehen, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto de Pesquisa D'Or (Idor). Ele falou sobre a harmina, um dos princípios ativos no chá usado em religiões como Santo Daime e União do Vegetal (outro é a DMT, que provoca as chamadas "mirações").

Rehen utiliza minicérebros em seus estudos, glóbulos de células neurais cultivados em jarros a partir de células humanas. Os organoides desenvolvem estrutura comparável com o cérebro e oferecem uma ferramenta multiuso para testar o efeito de vários compostos sobre a bioquímica por trás de nossas emoções e pensamentos.

Uma de suas linhas de pesquisa envolve psicodélicos como ayahuasca e 5MeoDMT, alucinógeno obtido do sapo Bufo alvarius. Depois de embeber os minicérebros com uma dessas substâncias, Rehen faz um levantamento das proteínas produzidas por eles.

No caso da harmina oriunda da ayahuasca, encontrou níveis alterados de 155 delas, para mais ou para menos. O próximo passo, que contou com a colaboração de Daniel Martins, da Unicamp, foi descobrir o que elas estariam aprontando no organoide.

O quebra-cabeças precisa de ajuda de programas de computador para ser montado. Cada proteína participa de diferentes cascatas de reações bioquímicas que acontecem nas células (as chamadas vias metabólicas, ou de sinalização) e dão pistas sobre as funções em que estão envolvidas.

"Essa abordagem nos permitiu o mapeamento de centenas de novos alvos para a compreensão não somente dos efeitos da harmina sobre células neurais humanas, mas de seu eventual potencial terapêutico", disse Rehen em Londres.

Já se conhecia que a harmina modula a produção da enzima DYRK1A, elo importante na formação das placas responsáveis pela degeneração cerebral no Alzheimer.

A análise dos brasileiros confirmou e detalhou algumas vias que participam da inibição da enzima. E foi além, identificando efeitos da harmina também em vias de sinalização associadas à comunicação celular e à neurodegeneração, importantes no alzheimer e na demência.

O estudo é muito preliminar, alerta Rehen: "Me preocuparia [se fosse tomado] como incentivo ao consumo do chá de ayahuasca como terapia alternativa para alzheimer, o que obviamente seria leviano afirmar nesse momento".

Leor Roseman, do Imperial College, como Sessa, pesquisou o que brota de cérebros de gente de carne e osso na forma de palavras: entrevistou 31 frequentadores -18 judeus e 13 palestinos, muçulmanos e cristãos- de centros de ayahuasca em Israel e na Palestina.

Sua análise das respostas indica que, sim, o chá psicodélico pode favorecer a reconciliação entre indivíduos separados por uma história sangrenta. Numa apresentação carregada de conteúdo emocional, Roseman projetou na tela várias declarações dos participantes.

"Uma parte grande do que eu percebi foi quanto [meu] ativismo, mesmo o ativismo não violento, era motivado pelo ódio contra o outro", disse um palestino. "Tratava-se mais de demonizar, não violência motivada pelo ódio, e não por amor e compaixão."

Um judeu, por seu lado, contou como foi tocado por canções em árabe: "Você escuta a linguagem que mais odeia, de longe, talvez a única no mundo de que realmente não gosta, e de repente ela o leva para a luz e o amor".

"Será que a ayahuasca pode promover a paz?", pergunta-se Roseman. "Não sei. Mas que tem potencial, tem."

No Brasil, o consumo de ayahuasca é legal por ser sacramento em cerimônias religiosas. Luz, paz e amor, entretanto, não têm sido a tônica em relação a drogas no governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL), que conta com defensores extremados do proibicionismo como o ministro de Desenvolvimento Social, Osmar Terra.

A pesquisa psicodélica sofre duplamente no país. Não apenas tem de lutar contra o preconceito em torno das substâncias -que não causam dependência e servem para tratá-la- como ainda está sujeita ao arrocho geral de verbas para ciência.

Stevens Rehen, da UFRJ e do Idor, fechou sua palestra mostrando a repercussão internacional desse estrangulamento, por exemplo na revista Nature. Saiu muito aplaudido, pelo trabalho de ponta com  minicérebros e pela disposição de seguir em frente.

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Secretário de Cultura deixa cargo após governo suspender edital com séries sobre temas LGBT

Henrique Pires (esq.), secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania — Foto: Clarice Castro/Ministério da Cidadania

G1 Brasília
Por Guilherme Mazui e Gustavo Garcia

Henrique Pires estava no Ministério da Cidadania desde o início do governo e afirmou ao G1 que medida foi 'gota d'água'. Suspensão foi publicada nesta quarta (21) após críticas de Bolsonaro.

O secretário especial de Cultura do Ministério da Cidadania, Henrique Pires, informou nesta quarta-feira (21) ao G1 que deixará o cargo. Segundo Pires, a decisão foi tomada porque ele vinha sendo uma "voz dissonante" no governo. A assessoria do ministro da Cidadania, Osmar Terra, porém, disse que foi ele quem demitiu o secretário.

Henrique Pires estava no cargo desde o início do governo Jair Bolsonaro e afirmou que decidiu deixar a secretaria após o ministério suspender um edital que havia selecionado séries sobre diversidade de gênero e sexualidade a serem exibidas nas TVs públicas.

"Isso [suspensão] é uma gota d'água, porque vem acontecendo. E tenho sido uma voz dissonante interna", disse Pires.

    "Eu tenho o maior respeito pelo presidente da República, tenho o maior respeito pelo ministro, mas eu não vou chancelar a censura", acrescentou.

Na semana passada, ao fazer uma transmissão ao vivo em uma rede social, Bolsonaro disse que o governo não vai financiar produções com temas LGBT.

"Fomos garimpar na Ancine, filmes que estavam já prontos para ser captado recursos no mercado. [...] É um dinheiro jogado fora. Não tem cabimento fazer um filme com esse tema", afirmou o presidente na ocasião (leia detalhes mais abaixo).

Ao informar a saída do cargo, o secretário especial de Cultura disse nesta quarta-feira que não concorda com "filtros" na atividade cultural.

"Eu não concordo com a colocação de filtros em qualquer tipo de atividade cultural. Não concordo como cidadão, e não concordo como agente público, você tem que respeitar a Constituição", afirmou Henrique Pires.

Críticas de Bolsonaro

Bolsonaro afirmou na quinta-feira (15) que não irá permitir que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) libere verba para produções com temas LGBT.

Na ocasião, o presidente citou quatro obras que participaram de um edital realizado pela Ancine, pelo Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC). As produções seriam financiadas pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

"Afronte", "Transversais", "Religare Queer" e "O sexo reverso" são projetos de séries anunciados em março como parte de uma seleção preliminar do processo.

Nota

Leia a nota divulgada pelo Ministério da Cidadania sobre o assunto:

Nota à imprensa

Ao contrário da versão divulgada pelo ex-secretário especial da Cultura José Henrique Pires o cargo foi pedido pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra, na terça-feira (20), à noite, por entender que ele não estava desempenhando as políticas propostas pela pasta. O ministro se diz surpreso com o fato de que o ex secretário, até ser comunicado da sua demissão, não manifestou qualquer discordância à frente da secretaria. O secretário-adjunto e secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, José Paulo Soares Martins, assume o cargo.

Assessoria de Comunicação Social

Ministério da Cidadania

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